08/04/2026 17:07:39
Alagoas
Jumentos perdem 94% da população em 30 anos nos estados nordestinos
Perda da população de jumentos evidencia urgência de políticas públicas e proteção animal
Fabiane de Paula/SVMPopulação de jumentos despenca e especialistas pedem ação urgente no Nordeste
Todo Segundo

A divulgação de dados internacionais apontando que a população de jumentos no Brasil seria “dez vezes maior que o estimado” provocou forte reação entre especialistas e acendeu um alerta direto em estados nordestinos como Alagoas. Para pesquisadores e entidades de defesa animal, a realidade está longe do cenário de abundância apresentado e pode indicar, na verdade, um processo acelerado de desaparecimento da espécie.

O levantamento, publicado pelo portal World Population Review, foi questionado por cientistas de instituições como a Universidade de São Paulo (Esalq) e a Universidade Federal de Alagoas, além de organizações internacionais como a The Donkey Sanctuary e a Frente Nacional de Defesa dos Jumentos. Em carta, os especialistas apontam inconsistências graves nas estimativas e alertam que os números podem mascarar uma crise silenciosa.

De acordo com o relatório, os dados teriam como base informações da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO). No entanto, pesquisadores explicam que essas estatísticas não são resultado de censos diretos, mas sim de projeções construídas a partir de dados secundários. No caso dos jumentos, a base histórica vem da Pesquisa da Pecuária Municipal, que deixou de divulgar números específicos sobre a espécie desde 2013, obrigando o uso de modelos matemáticos que tendem a suavizar quedas e esconder oscilações mais bruscas.

Esse fator é considerado decisivo para a distorção atual. Enquanto o cenário internacional sugere estabilidade ou crescimento, estudos nacionais apontam uma queda significativa, especialmente após 2016, quando o abate de jumentos foi intensificado para atender à exportação de peles destinadas à produção de ejiao, produto da medicina tradicional chinesa. A consequência, segundo especialistas, foi uma redução drástica da população, sobretudo no Nordeste.

Dados recentes indicam que o Brasil possui hoje cerca de 79 mil jumentos nordestinos, número crítico diante da importância histórica e econômica desses animais para a região. A gravidade da situação é reforçada por estimativas apresentadas por entidades de proteção animal. Segundo Vânia Nunes, “de cada 100 jumentos que existiam no Brasil há três décadas, hoje restam apenas seis”. O dado representa uma perda de aproximadamente 94% da população de jumentos nordestinos entre 1996 e 2024, evidenciando um cenário de colapso que contrasta diretamente com estimativas internacionais que apontam crescimento.

Em Alagoas, pesquisadores da Universidade Federal de Alagoas reforçam que o jumento nordestino possui características únicas e desempenha papel fundamental na agricultura familiar, especialmente em áreas do semiárido. A perda desses animais representa não apenas um impacto produtivo, mas também uma ameaça ao patrimônio genético da espécie.

A situação se torna ainda mais preocupante quando analisada na perspectiva da cadeia produtiva. Não há registros consolidados sobre criadores, transporte entre estados, condições de abate ou destino das carcaças, o que levanta questionamentos sobre bem-estar animal e legalidade das operações. Especialistas também criticam a forma como os dados são apresentados internacionalmente, muitas vezes misturando diferentes tipos de asininos. O jumento nordestino, que está ameaçado, acaba sendo contabilizado junto com o jumento pêga — uma raça valorizada, criada de forma controlada e com maior presença em outras regiões do país. Essa generalização contribui para uma leitura equivocada e pode retardar ações urgentes de preservação.

Diante desse cenário, cresce a pressão sobre o Ministério da Agricultura e Pecuária para que haja mais transparência. Pesquisadores e entidades cobram a divulgação de dados atualizados sobre população, manejo, exportações e condições sanitárias, considerados essenciais para entender a real dimensão do problema.

Mais do que uma divergência técnica, o debate revela um risco concreto. Enquanto relatórios internacionais apontam números inflados, o Nordeste — e Alagoas em particular — pode estar assistindo à extinção progressiva de um animal que sempre foi símbolo de resistência e parte fundamental da vida no campo.

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