
Existe uma verdade incômoda na política brasileira: nenhum esquema de corrupção sobrevive sem algum tipo de apoio, tolerância ou silêncio da sociedade. O político que compra voto, troca favores e transforma o mandato em negócio pessoal não age em um vazio. Ele encontra terreno onde ainda existe a cultura do “jeitinho”, do benefício individual acima do interesse coletivo.
O eleitor, muitas vezes, cobra honestidade dos políticos nas redes sociais e nas conversas de bar, mas, na hora da escolha, alguns ainda se deixam seduzir por pequenas vantagens, promessas pessoais ou favores de ocasião. É a velha lógica do “o que eu ganho com isso?”, que acaba fortalecendo justamente aqueles que usam o poder para interesses próprios.
Mas existe uma pergunta que precisa ser feita: de onde vem o dinheiro usado por candidatos que gastam milhões em campanhas eleitorais? Como alguém investe valores milionários para conquistar um mandato público e depois promete trabalhar pelo povo? A conta precisa fechar. E, muitas vezes, o custo dessa disputa política acaba sendo pago pela própria sociedade, seja por meio de recursos públicos desviados, seja pela influência de grupos econômicos interessados em controlar decisões.
A corrupção não começa apenas quando o político coloca a mão no dinheiro público. Ela também começa quando a população aceita trocar o futuro coletivo por uma vantagem imediata. Quando o voto vira moeda de troca, o cidadão deixa de escolher representantes e passa a alimentar um sistema que depois reclama existir.
É preciso romper com essa contradição. Não existe político corrupto forte onde existe eleitor consciente e fiscalizador. O voto não é favor, não é presente e não é oportunidade de negócio. É uma ferramenta de poder.
A democracia não pode ser tratada como um balcão de troca. Enquanto parte da população enxergar o político como alguém que deve “dar alguma coisa” em troca do voto, sempre haverá espaço para quem transforma a política em um investimento pessoal.
A mudança começa no momento em que o eleitor entende que o dinheiro público não pertence ao político, pertence à sociedade. E que escolher mal um representante também tem consequências.
A corrupção é uma construção coletiva: tem quem pratica, tem quem se beneficia e tem quem permite que ela continue existindo.

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