13/04/2026 22:00:07
Coisa da Política
Vereador sem salário? A proposta que promete moralizar a política
Medida pode atingir maioria das cidades do país e transformar vereadores em conselheiros
Fim do salário de vereadores? A ideia parece simples — e sedutora. Mas será que é assim tão fácil?

Fim do salário de vereadores? A proposta do deputado federal Amom Mandel, do Cidadania-AM, reacende um debate que sempre volta com força no Brasil, geralmente impulsionado pela insatisfação com os custos da política: afinal, vereador deve ser remunerado ou atuar por vocação?

O texto em discussão na Câmara dos Deputados prevê uma mudança profunda na estrutura das câmaras municipais de cidades com até 30 mil habitantes — que representam a maioria esmagadora dos municípios brasileiros. O recorte populacional atinge a maior parte dos mais de 5,5 mil municípios do país.

Nesse novo modelo, os vereadores deixariam de receber salário fixo e passariam a atuar como “conselheiros municipais”, eleitos pelo voto popular, com remuneração restrita a uma ajuda de custo por participação em sessões. 

Na prática, a medida não mexe apenas em números. Ela altera a própria lógica da política local, transformando o mandato de vereador em uma função sem renda fixa, mais próxima de uma atuação voluntária do que de um cargo público tradicional.

O argumento dos defensores é direto e encontra forte apelo popular: reduzir gastos públicos e combater a profissionalização da política. A ideia é simples no discurso — se não há salário, diminui o interesse de quem entraria na política apenas por dinheiro. Nesse cenário, a política seria ocupada por pessoas movidas por compromisso comunitário e não por interesses pessoais ou financeiros.

Mas é justamente essa simplicidade que levanta as maiores dúvidas.

Ao retirar a remuneração fixa, a proposta pode acabar criando uma barreira de entrada na política. Na prática, apenas quem já possui estabilidade financeira teria condições de exercer o mandato. Trabalhadores comuns, professores, agricultores e profissionais assalariados poderiam ficar de fora da disputa, não por falta de interesse, mas por impossibilidade econômica.

Outro ponto sensível é o funcionamento das câmaras municipais. O trabalho de um vereador não se limita às sessões legislativas. Envolve fiscalização do Executivo, análise de orçamento, acompanhamento de políticas públicas e atuação constante junto à população. Sem remuneração fixa, críticos alertam que essa função pode se tornar parcial e enfraquecida, reduzindo a capacidade de controle sobre as prefeituras.

A proposta também reacende uma discussão histórica importante. Até meados da década de 1970, vereadores no Brasil não recebiam salário fixo. A mudança ocorreu justamente para ampliar a participação política e permitir que cidadãos de diferentes classes sociais pudessem exercer mandatos sem depender de renda própria. Ou seja, o modelo atual nasceu como instrumento de democratização do acesso ao poder.

Hoje, entidades como a Anacam já demonstram preocupação com os impactos da proposta, especialmente sobre a autonomia dos legislativos locais e a estrutura da democracia municipal.

No fim, o debate vai muito além de economia de recursos públicos. Ele toca no coração do modelo democrático brasileiro: queremos uma política mais barata ou uma política mais representativa?

Porque, por trás da promessa de moralização, existe uma pergunta que ainda não foi respondida com honestidade suficiente: quem pode, de fato, fazer política sem salário?

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