
Rui Barbosa, Alexis de Tocqueville e C. S. Lewis viveram épocas diferentes, pensaram problemas diferentes, mas deixaram reflexões que continuam provocando o presente. Rui Barbosa defendeu uma imprensa livre dentro dos limites da lei; Tocqueville enxergou na liberdade de imprensa uma proteção essencial contra a concentração do poder e a tirania da opinião dominante; e C. S. Lewis tratou o orgulho como uma força que transforma a relação com os outros em uma disputa permanente.
Talvez seja justamente aí que esteja uma das perguntas mais incômodas da política brasileira: quem precisa proteger a própria honra o tempo todo está realmente protegendo a honra?
Quem escolhe ocupar uma posição de poder precisa entender uma coisa elementar: ser autoridade não significa ser imune à crítica.
Crítica faz parte da democracia. Questionamento faz parte da vida pública. Contraditório faz parte do jogo.
É claro que existe uma fronteira. Calúnia, difamação e acusações falsas não são simplesmente opiniões e podem gerar consequências jurídicas. Mas existe uma diferença enorme entre combater um crime e transformar toda crítica inconveniente em caso de Justiça.
Quando isso acontece com frequência, o efeito não fica restrito ao alvo da crítica.
O cidadão começa a pensar duas vezes antes de falar. O jornalista começa a medir cada palavra. O adversário político calcula o risco de discordar. E o debate público vai encolhendo.
Esse é o verdadeiro perigo.
Uma democracia saudável não precisa de autoridades protegidas contra perguntas. Precisa de autoridades suficientemente seguras para suportá-las.
Isso vale para quem ocupa o Palácio, para quem senta no Congresso e também para quem veste a toga.
Aliás, quanto maior o poder, maior deveria ser a disposição para suportar o contraditório.
Porque autoridade sem tolerância à crítica pode facilmente confundir respeito com silêncio.
E quando instituições que deveriam arbitrar os conflitos passam a aparecer constantemente no centro deles, surge outra pergunta inevitável:
quem fiscaliza quem?
Não é preciso apontar nomes. Basta olhar para o ambiente político brasileiro.
Executivo, Legislativo e Judiciário disputam espaço, influência e autoridade. Enquanto isso, o cidadão assiste, muitas vezes sem entender onde termina a disputa institucional e começa a disputa pelo poder.
E há algo ainda mais simples que tudo isso.
Honra não deveria depender de uma sentença.
Uma sentença pode reparar juridicamente uma ofensa. Pode estabelecer responsabilidade. Pode reconhecer um abuso.
Mas caráter é outra coisa.
Caráter aparece quando ninguém está obrigado a aplaudir.
Aparece quando alguém é contrariado.
Aparece quando uma crítica injusta é recebida sem transformar imediatamente o crítico em inimigo.
E, sobretudo, aparece quando quem tem poder consegue lembrar que poder não é propriedade particular. É uma responsabilidade temporária diante da sociedade.
Cristo, para quem acredita nele, oferece uma referência ainda mais profunda. Foi humilhado, atacado e condenado injustamente e, ainda assim, respondeu com perdão.
Não se trata de dizer que toda ofensa deve ser ignorada ou que a Justiça não deve agir diante de crimes. Trata-se de lembrar que nem toda provocação merece uma guerra.
Algumas ofensas exigem resposta.
Outras exigem Justiça.
E algumas merecem simplesmente o silêncio de quem sabe quem é.
No fim, talvez a maior defesa da honra não esteja em controlar aquilo que dizem sobre nós, mas em cuidar daquilo que nossas próprias atitudes dizem a nosso respeito.
Porque honra não é aquilo que uma sentença declara.
Honra é aquilo que o caráter sustenta quando o poder já não consegue falar por você.
E fica a pergunta:
Senhoras e senhores, quanto vale a sua honra se ela precisa de um preço para ser defendida?

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