
Um clique. E pronto.
O Estado, em sua infinita sabedoria algorítmica, matriculou o garoto no Enem. O incentivo do Pé-de-Meia está garantido. Nunca a burocracia foi tão eficiente em empurrar a juventude para o futuro. O problema é que o futuro, senhoras e senhores, tem trinta linhas, exige tinta preta e vontade.
Na sala de aula, quando distribuo as folhas pautadas, a mágica de Brasília desaparece. Ali, entre a classe de fórmica arranhada e o ar-condicionado (quando tem) pingando, não há clique que salve. A folha em branco é o nosso estado de natureza hobbesiano: assustadora, selvagem e imune a atalhos.
O aluno olha para a folha. Olha para mim. Ele parece procurar na borda do papel um botão de "aceitar os termos e condições" que preencha a tese e os argumentos por gravidade.
— Professor, como eu começo? — ele pergunta, girando a caneta como se tentasse dar a partida em um motor afogado.
Dá vontade de citar Sartre e dizer que a angústia dele é apenas a condenação à própria liberdade naquelas trinta linhas. Mas a pedagogia real, aquela que bate ponto e não vende curso milagroso na internet, não permite floreios. A verdade sociológica é mais crua: terceirizamos o pensamento para as telas e nos acostumamos a depender da inteligência artificial.
Automatizar a inscrição é fácil. O difícil é o processo artesanal, quase doloroso, de transformar ideias soltas em sintaxe. Exige tirar os olhos do feed e encarar a própria mente — um terreno que, ultimamente, anda com a grama meio alta.
Ele suspira, destampa a caneta e arrisca a primeira palavra. O sistema fez a matrícula, mas quem sangra na redação é ele.

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