
Outro dia, a coordenadora entrou na sala dos professores com aquela cara solene de quem carrega uma nova diretriz ministerial. "Deve ser algum outro documento, daqueles que nos tiram tempo e ganham lugar cativo nas gavetas", pensei. Bateu palmas duas vezes, o sinal universal de que a nossa paz havia acabado e que iria falar.
— Colegas, precisamos falar sobre o ECA Digital. A partir de agora, o currículo exige que ensinemos cidadania na internet, proteção de dados e uso ético da Inteligência Artificial.
Eu quase derrubei meu café no diário de classe. O de papel, claro, que eu ainda uso porque o sistema online da escola vive travando.
Fiquei ali, processando a informação. Eu, ensinar cidadania digital? Eu ainda digito com os dois dedos indicadores, pairando sobre o teclado como um gavião míope procurando a letra "H". Minha maior vitória cibernética do semestre passado foi descobrir como silenciar o grupo de pais no WhatsApp sem que eles recebessem notificação.
Mas a regra é clara: o professor é o farol do saber, um baluarte da educação. Então, engoli em seco, juntei os pincéis marcadores que uso para os meus mapas mentais e fui enfrentar o ensino médio, no turno vespertino, com eles já enfadados e sonolentos.
Parei na frente da turma com a minha melhor postura de guardião da moralidade digital. Escolhi o Jerlandersom como alvo visual. O Jerlandersom tem 16 anos, usa aparelho fixo e, desconfio fortemente, já operou day trade no mercado asiático durante as aulas de Geografia.
— Bom dia, turma. Hoje vamos falar sobre o ECA Digital e a importância de proteger os nossos dados na internet — comecei usando aquele tom professoral que a gente adota quando não domina o assunto. — Vocês sabiam que os algoritmos estão o tempo todo rastreando o que vocês fazem? Que precisamos ter ética no uso das inteligências artificiais?
A Rayara levantou a mão. A Rayara tem uma franja milimetricamente cortada e um olhar que me julga mais do que a Receita Federal.
— Professor — disse ela, com a voz mansa de quem explica a gravidade para uma maçã —, o senhor fala de proteção de dados, mas usa a mesma senha para o e-mail da escola, pro portal de notas e pro seu perfil no Facebook. É o nome do seu gato seguido do ano em que o seu time foi campeão.
Senti um suor frio na nuca.
— E sobre ética na Inteligência Artificial — continuou ela —, a gente sabe que o senhor usou o ChatGPT pra montar aquele material de História. O senhor esqueceu de apagar o "Claro, aqui está um plano de aula sobre o Brasil Império" no topo da primeira página. A gente só não falou nada pra não criar um clima chato.
O silêncio na sala foi absoluto. Não era um silêncio de respeito, era de pena. Eles me olhavam como se eu fosse um fóssil de transição evolutiva: o Professoris Analogicus, a criatura que sobreviveu à fita cassete, mas será devorada pelo TikTok.
Dei um sorriso amarelo. Tentei argumentar que aquilo era um experimento pedagógico para testar a atenção deles. Ninguém acreditou. O Jerlandersom até balançou a cabeça, complacente, e voltou os olhos para o celular, provavelmente jogando Free Fire ou dando um jeito de descobrir a senha do Wi-Fi da sala do diretor.
Voltei para a sala dos professores e peguei o tal documento do ECA Digital para ler com calma. É um texto muito bonito. Fala de resguardar as nossas crianças dos perigos do mundo virtual, dos predadores invisíveis e da superexposição.
Mas, olhando para a minha turma, cheguei a uma conclusão silenciosa e ligeiramente perturbadora. Aquele documento estava com o foco errado. O ECA Digital não deveria ser para proteger os alunos da internet.
Ele deveria existir para proteger a internet dos meus alunos.
E, com muita sorte, proteger a pouca dignidade digital que ainda resta aos professores.

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