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Valdenice Guimarães

Sobre o autor

Valdenice Barboza Guimarães; Historiadora Psicóloga Clínica Comportamental. Membro fundadora do Instituto de Análise do Comportamento – IAC. Pós-graduada em Teorias e Técnicas Comportamentais: Educação, Pesquisa e Terapia.
Postada em 02/11/2018 13:41 | Atualizada em 02/11/2018 13:42
No dia de Finados, psicóloga alerta sobre como lidar com o luto
Valdenice Guimarães, historiadora psicóloga clínica comportamental, fala sobre as reações à perda

A perda é um evento estressante e os estímulos associados a esse fato tendem a tornar-se aversivos. Portanto, o luto é uma reação à perda, em geral de uma pessoa amada.

As reações à perda tendem a ser excessivas quando os reforçadores positivos do enlutado dependiam do falecido para serem produzidos. Nesse sentido, o tempo e a intensidade do luto serão determinados de acordo com o repertório comportamental do sujeito, que possibilitará ou não uma reação mais adequada para lidar com esse sofrimento.

Após a morte, o enlutado necessita de um tempo para adaptar-se à nova realidade e essa adaptação é relativa à intensidade e o envolvimento afetivo da relação.

Cada processo de luto é único e vai depender do vínculo que existia, pois, as pessoas vivenciam o sofrimento de maneiras diferentes.

Se a pessoa tiver uma relação de dependência com o falecido, é possível que não consiga reagir sozinha, precisando do auxílio de um profissional especializado.

A terapia objetiva a maximização de reforçadores positivos e a atenuação de variáveis aversivas envolvidas no sofrimento do paciente.

Entendemos comportamento, em um processo contingencial do organismo com o ambiente. Nesse sentido, podemos dizer que as pessoas apresentam estímulos discriminativos e estímulos reforçadores na história de vida dos organismos e, com a morte, esses estímulos deixariam de fazer parte da vida da pessoa enlutada, ou seja, a pessoa enlutada perderia esses reforçadores.

Se a pessoa enlutada tem um repertório comportamental limitado e não tem habilidade de enfrentamento para sobreviver sem o auxílio do outro, continuar vivendo fica muito difícil e muito sofrido.

Com a perda de uma pessoa querida ocorre uma alteração nas contingências de reforçamento na vida da pessoa, portanto, é normal que ocorra uma grande mudança comportamental em sua vida.

Quanto à intensidade e a profundidade afetiva do vínculo, proporcionalmente maior, mais intensa e mais duradoura será a dor pela perda.

Em algumas culturas orientais a morte marca a coroação da vida. Por conta desse entendimento elas celebram a morte por compreender que a morte faz parte da vida.

Os budistas choram quando nasce uma criança e se alegram quando alguém morre.

Já, nas culturas ocidentais morte costuma ser sinônimo de perda, de fim, de luto e de tristeza, o que aumenta consideravelmente a intensidade e o tempo do sofrimento.

A morte é algo irreversível e inevitável, o que implica que nenhum comportamento manifesto pelo enlutado vai alterar esse evento. Isso caracteriza uma relação de não contingência, ou seja, uma condição de incontrolabilidade do meio.

Diante dessa incontrolabilidade do meio as pessoas costumam emitir, inicialmente, sentimento de tristeza, raiva, ansiedade, medo, culpa, revolta, ataque de pânico, desespero, negação da morte e sensações orgânicas como: dores no peito, secura na boca, fraqueza muscular, insônia, falta de apetite, alucinações visuais e auditivas.

Muitas vezes, esses sintomas levam as pessoas a procurarem ajuda medicamentosa. Porém, é importante procurar um bom profissional de Psicologia que lhe dará suporte para lidar com esses eventos traumáticos e adaptar-se a viver sem a presença da pessoa tão amada.

O papel do terapeuta é auxiliar o enlutado a aceitar a realidade da morte, ou seja, compreender a finitude da vida, vivenciar a perda, sentindo a dor e a tristeza da perda, pois fazem parte do processo, além de auxiliar a pessoa no enfrentamento das contingências atuais e também encontrar novos reforçadores para o sujeito continuar vivendo.

Compreender que aquela pessoa foi importante em sua vida e que não estará mais presente pelo menos fisicamente no seu dia-a-dia, é essencial para o não adoecimento. O tempo não volta, mas ficarão os ensinamentos e a lembrança de momentos inesquecíveis.

O luto é um longo processo. Lentamente é possível minimizar esse sofrimento pela ausência de reforçadores e aprender a lidar com a ausência.

O terapeuta, gradualmente leva o paciente a entrar em contato com estímulos que lembrem a pessoa falecida, discutindo assuntos que envolvam essa pessoa sem fala, especificamente do sofrimento da morte. Ver fotografias, visitar lugares que frequentava com o falecido. Desse modo, gradualmente o que, inicialmente, era muito aversivo e sofrido, tende a diminuir bastante.

Cada pessoa vivencia o luto a partir do seu repertório comportamental. Viver esse processo de luto não tem como finalidade esquecer aquela pessoa que foi importante, mas aprender a viver apesar da perda.

É necessário que durante a vida, o indivíduo tenha sido modelo de vida, que tenha sido coerente entre seu discurso e suas ações a ponto de deixar marcas no ambiente, quando se for.
Gérson Alves da Silva Júnior, o maior expoente da Análise do Comportamento em alagoas foi muito feliz quando afirmou:

“Quando tudo em nós for silêncio, o que fizemos e a maneira como fizemos será nosso eco no mundo. ”

Portanto, pensar sobre a finitude do ser humano é algo desconfortável, mas a depender das marcas deixadas pelo modelo de ser humano, o sujeito continuará vivendo, continuará presente na vida dos enlutados.

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